Deliriar

Minhas tolices me alegram mais que minhas inteligências.
Eu fiquei assim depois de ontem.
Descobri que picada de mosquito dói mais que dor de amor.
Meu pai que me mostrou.
Ele estava com uma febre de larva.
Disseram que era dengue, mas ele gostou de deliriar.
Disse que tinha um descampado, com uma mosca grande e uma tênia. Duas moscas.
Depois mentiu que era meia mosca.
Ninguém lá em casa ficou muito convencido.
Resolvi aplicar minhas criancices pra crescer como gente.

Poema Impreciso

Uma gota é bastante
Das coisas que não preciso
“me expliquei muito sem querer”
isso é inútil?
Um poema me esvazia
e me aumenta.
Não tenho hoje essa vontade de dizer das coisas grandes.
Me influencio muito das coisas que não interessam.

Desinventar

Assim,
Pra voltar aqui eu não precisava desinventar minha escrita
Mas eu queria
Até que me deu uma preguiça de re-olhar tudo…
Acho que ainda dá de fazer por aqui
Se me acontece de pegar alguma coisa
Do bolso ou de algum caderninho
Me mudei um pouco da palavra pro mundo
(e pras coisas)
Mas assim que me desocupo um pouco
Me desinundo aqui de ovo.

Lento Desatino

– Oi.
– Oi.
– Como foi?
– O discurso foi desconexo, ele não entendeu. Até a porta do táxi, ainda discutia enquanto ia embora. Juras de amor. Bando de palavras inuteis (deveria haver um coletivo disso) na ânsia de anunciar, dou idéias pro destino – fico, e pago pra ver! Bato a porta e fujo pela janela, deixando de acreditar nos antidepressivos.
– Lindo carreto, poucas laranjas… o céu ainda era turvo quando procrastinei pela última o teu vestido… era gostoso e sensual e isso fazia a minha alma arder de ciúme e rápido como quem rouba voltei a sorrir e disfarçar… não é fácil ser cínico no amor…
– Desculpe a delicadeza. Mas hoje à noite fez Sol, e eu me queimei. Mas ao contrário. Não foi bem assim que tem sido.
Desde que comecei com toda essa coisa, e a vida a rodar e a girar no fluxo deste amor sem destinatário. Uma ânsia de roubar um beijo. De querer o que não posso ter. De gostar do que não me gosta. Assim ou assado, desando a andar só e fina. Desafinado coração. Que será que falta agora?
(…)
– Alinhar algum astro?
– Tente ser mais mundana, de mais carne e de mais osso, pode surgir efeito em gente enferma… Mas pra todo mal há uma cura e se te curar for preciso, te beijarei com gosto, sem esforço farei…
– Cansei de curar gente enferma. Estou mais pra espírito e sangue. Pra luz e leite, chocolate quente ou suco de uva. Quem precisa de cerveja? Eu quero então a cereja!
– Ainda choro quando não te vejo e quando não vejo as outras… Desde que tu me ensinou a colher maçãs, quero uma nova por dia…
– Vivo e sigo na exploração do horizonte sem sentido
com os sentidos aguçados e a cabeça mais erguida.
– É o destino quem te procurou hj? Ou foi a sorte que te negou?
Não importa. Chegou até aqui e por isso já merece viver.
– O destino fingiu de morto, e a sorte apareceu como um milagre
divino. Agradeci. Cheguei rápido. Ou nem tanto. Mas cheguei o mais perto que pude.
– Amor, dor e o próprio ódio são apenas diversão em mentes brandas.
– Eles quase me pegaram, foi quase. Mas eu estava abençoada.
Ultimamente tem sido assim.
– Nessas tuas andanças tenho te visto visto de canto de olho, o que me agrada é que tu, saltitante, requebras pra lá e para cá sempre de cabeça erguida, firme e segura. Teu anjo te ri!
– Estamos perto! Quase lá! Vamos chegar!
– Quando será que vamos nadar juntos? Sem culpa e sem dor?
– Nadar na luz?
– Vou partir. Mas volto tantas vezes forem precisas. Só pra te mostar quem sou.
– Fica bemmmmm e nos falamos. Vou ter que sair do computador porque to com puta dor nas costas.
– Sim. Te cuida que eu me cuido.
– Te amo. Te entendo.TE ENTENDO!
– Nosso encontro é em outro mundo!

Blue Birds

Até quando a luzinha do painel vai indicar que a gasolina está acabando?
E como vou pagar a conta do restaurante? Onde acabei de almoçar. Meus cartões, todos, cansados na minha carteira.
Além de chegar em casa e encontrar toda a bagunça que deixei quando saí, mais cedo. Crescendo.
Os meus pais estão envelhecendo.
Meu país está definhando em meio a pastores evangélicos.
Mascarados inconscientes, falsos profetas cuidando dos direitos humanos.
Tudo bem?
Toca uma canção que diz, que o pássaro azul que voa faz uma sombra crescer sobre minha cabeça.
Mas não, eu não estou cansada.
Nem vou entregar nada. Nem esquecer.
A lucidez que não me deixa parar de pensar.
Isso pode parecer um inferno, mas vejo uma luz mais forte se acender.
Uma dramaticidade maior me faz presente.
Uma dor, uma vontade de deixar as lágrimas caírem.
Mas não, eu não vou entregar nada.
É só uma consciência maior do que está acontecendo comigo.
Eu, que sou Eu, farei isso ficar ainda mais parecido comigo.
Que eu posso estar sozinha, mas não estou.
Por exemplo, o Kerouac me entregou em sonhos um pôster de fotos dele e do Allen Ginsberg. Para eu vender. Mas eu não quis encontrar compradores.
Quem é o Novo Jovem que canta agora? Está desamparado?
Onde nós estamos? O que nós sabemos?
Por quê às vezes eu acordo chorando?
É preciso sim estar atento a estes pensamentos.
É preciso sim.
Eu me atravesso, viro do avesso para não permitir que tudo isso me atravesse sem eu sentir.
Quando tudo isso começou a nascer em uma quietude mais sólida?
Fico no conforto da memória.
Não é uma questão de escolher a dor.
É uma questão de estar cada vez mais próximo de si.
É uma questão de sentir, com o fim de questionar.
Sim. Sim baby, agora você consegue me ouvir?
Eu poderia tranquilamente chamar isso de Amor.
Mas precisamos cuidar mais.
Eu nos imagino com grandes asas.
Dragões que não conhecem o paraíso.
Corações imensos. Mas Humanos.
Sim, cada vez mais Humanos

Mi Uruguay

Permítame saber decirte lo que pasa en mi corazón
cuando la pampa hace mi corazón crecer
– abrindo camino hasta mí:
el Río Uruguay es como las venas de mi cuerpo
tengo los ojos fijos en la paisaje
con ambre de ver
y no puedo parar de diseñar mis sueños
por el inmenso azul del cielo
del Sur.
El pan, la gente, los kioscos, los cigarrillos…
y el Mar!
Pierdo la cabeza por las calles llenas y vacías del todo.
Todo es poesía.
Pero tengo siempre que irme.
Estoy siempre de partida.
Es lo que dice mi cabeza.
Y el corazón, libre, expandido y menos roto
siente saudade antes mismo de volver.
El Uruguay es como un río infinito que corre al Sur de mi corazón.

Desexagero

“Todas as cartas de amor são ridículas.” (Álvaro de Campos)
Olho através da janela. É madrugada. Não tenho sono. O planeta desce Azul. Desculpe a delicadeza. O excesso de sinceridade. De exposição. É que lembro da tua mensagem. Tu lembra? O eco que ela faz. Distante pela demora ou viva pela espera do tempo das coisas. No olho o desencontro momentâneo. A desconecção. A virada do jogo. A presença de um jogo antes ausente. Quando era pra mim mais simples, mais isento da complexidade de sentir. Vejo as letras se formarem e quase nao acredito. Sei o quanto pode um texto ser definitivo. Por mim tudo bem. Abandono aqui a possiblidade de ser um jogador. Pode ser a pressa. A urgência. O desejo. A vontade. Não sei. O estranhamento. A desconstrução. Sinto agora em forma de poesia e quase me despojo de tudo. Da urgência. Até do desejo. Quase. Ainda penso. Quase não penso. Quase só sinto e resolvo quase guardar. Quase guardar alguma coisa. Tenho aqui um tempo pra decidir. Preciso aprender. Começo a desapegar em fluxo. Fluxo contínuo em que quase já nao penso nem sinto. Escrevo e deixo ser assim. Já sendo. Somos. Sou. Com alma. Com calma. Na contra-regra. Desafiando os limites do bom senso.
Persigo o fluxo. Odeio o quase e nele me lambuzo agora. Cultivo o exagero. Quando não desisto crio coragem. E sem querer perder tempo, querendo dizer: vamos? Ou até mais: vem comigo? E quase dizendo: quem sabe um dia? Por medo. Por coragem. Poderia apagar tudo isso e dizer também. “Me dê sua mão. Me dê sua mão ou não. Olhe pra lá. É noite de lua cheia. Nós somos o tempo. não sei se existe destino, mas aqui está uma decisão. Decida!” Mas amanhece e me acalmo. O dia está lindo. O sol traz mais luz e também mais razão. A noite é má conselheira. E a poesia é uma promessa. Ou uma despedida. Porque é um grito no escuro. É corajosa e covarde. Uma pergunta insana. De proporções inimagináveis. Ardente de uma resposta. Carente de uma resposta possível. Dentro e fora do tempo. Uma mentira sincera. Como a tua mensagem. Vaga. Guardada no universo das possibilidades infinitas. Das galáxias que insistem em girar. Um astro. Sempre em direção. Em direção a? Uma estrela bobalhona.
Já não penso. Não sinto. Depois, sem sentir nem pensar mais, nem respondo a velha mensagem, e nem digo: “eu nunca serei o seu amor.”  Da minha janela, estrelas. E da tua?